Wednesday, October 11, 2017

Identidade de Género - debate ou salganhada ilógica conservadora? | Prós e Contras (RTP)


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Antes de mais nada, fica o link para o debate. Ia escrever ontem sobre tudo isto, mas tendo em conta o pano para mangas que muitos argumentos apresentados, que nem a argumentos chegam, às vezes chegando a tocar no ridículo mesmo, me ia dar, adiei.
E depois percebi que talvez não fosse preciso muito mais do que justamente expor passo por passo o que foi dito, para que ficasse de caras a completa falta de lógica apresentada pelos elementos neste caso contra a proposta de lei. Realmente a única argumentação válida e coerente que consegui extrair desse lado foi mesmo o questionar então e os restantes géneros não binários, onde ficam no meio disto, porque não, a fazer uma alteração, permitir a todo o espectro de género.
Sol de pouca dura, no entanto, pois não tardaram a cingir mulheres a características estereotipicamente femininas e homens a masculinas, apontando até um caos social pela permissão da alteração de género, quando a expressão do mesmo não lhe correspondesse de maneira aparentemente óbvia. De resto, foi um incessante bater na mesma tecla, mesmo depois de rectificações. Isso e um desvio do tema para casos particulares e questões mais que rebuscadas. 
Sem mais demoras, deixo então que o conteúdo do debate fale por si próprio, até porque a responderem a alhos com bugalhos como aconteceu, fica difícil mesmo comentar seja o que for. 

Desde logo o programa abre com o título “mudança de sexo aos 16 anos”, referindo-se à proposta de lei da alteração da idade permitida, de 18 para 16 anos de idade, com acompanhamento parental e sem necessidade de relatório médico, no que concerne à mudança de género apenas em registo civil. O procedimento é referido como alterações sem volta atrás.

Catarina Marcelino ressalva que aquilo que se está a fazer é retirar os factores de saúde de uma questão que é identitária e não patológica. E que a lei não se refere a operações de mudança de sexo, não tendo portanto a ver com saúde, é apenas a mudança de nome e de género em cartão de cidadão e registo civil. Destaca ainda o plano para tornar as escolas mais inclusivas para as crianças trans, formando também os professores para a questão.

Sofia Galvão discorda da proposta de lei. Aponta a transsexualidade e disforia de género como diagnósticos de perturbação da identidade. No entanto, distingue sexo anatómico de género, na elaboração do seu discurso, argumentando até que as mudanças de sexo deviam sair do binarismo vigente.

Sandra Cunha rectifica a questão da criminalização dos pais pelos filhos caso não aceitem a mudança de sexo, esclarecendo tratar-se apenas da actuação do Ministério Público na defesa dos interesses da criança, nos casos necessários. Acrescenta ainda que a autodeterminação é um direito fundamental, não susceptível de validação alheia. E que os jovens têm essa capacidade de autodeterminação, manifestando-se até desde muito cedo nas crianças. E a disforia de género decorre muito da impossibilidade de assumir o género e a descriminação da sociedade perante a situação. “Os médicos não avaliam identidades. Cada pessoa é que o sabe no seu íntimo”, encerra.

Abel Matos, psicólogo, declara que isto é um tema político porque não tem nada a ver com a área científica. Distingue também sexo de género, referindo até a multiplicidade de géneros existentes e o não-binarismo. No entanto, prossegue dizendo que vamos ter pessoas a mudar de género que não são transsexuais porque não vão fazer nada com o seu corpo. Dá dois exemplos, para explicar porque acha a lei ridícula: uma mulher trans que no final do treino num ginásio “vai tomar banho com as senhoras, com o seu pénis masculino”, considerando-o uma opressão. Refere ainda o exemplo de um homem trans que tenha engravidado, tornando-se um “homem grávido”, uma novidade em termos mundiais. E termina esta primeira intervenção referindo a autoridade do conservador do registo civil para avaliar a capacidade psíquica; e ainda diz haver questões de saúde pública postas em causa, devido às cirurgias realizadas aos bebés intersexo passarem a ser apenas realizadas em risco de saúde evidente, e também devido a ficar ao critério do jovem decidir ir ou não ao psicólogo, não podendo ir contra vontade. O psicólogo refere que há doenças psíquicas que podem levar a pessoa a pensar que é de outro género.

Catarina Marcelino quando questionada sobre a maturidade aos 16 anos, refere que a essa idade há muitos jovens que já têm a sua expressão de género e identidade formada, até muitas vezes com apoio dos pais. Portanto devem ter direito a que a sua identificação e forma como são legalmente tratados a reflicta.

Sofia Galvão responde dizendo que um indivíduo com expressão de género feminina, com esta alteração agora se quiser, pode fazer a mudança civil para género masculino e vice-versa (embora tenha anteriormente distinguido género, sexo e expressão de género; e referindo até o não-binarismo); refere que estamos a caminhar para uma sociedade em que na rua alguém tem uma aparência que identificamos como um género, que depois pode ser algo completamente diferente. Volta a proferir “perturbação da identidade de género”. Diz ainda que os conservadores do registo civil vão dizer que sim ou não com base na empatia que tem com os casos, sendo que não tem relatório nenhum.

Daniela Bento, mulher trans, traz contributo ao debate, mostrando as diferenças que existem até em meios mais conservadores, não existindo sequer informação ou linguagem relativa a estas questões de género, havendo também uma opressão muito maior. Introduz também a perspectiva de género enquanto constructo e performance social, e refere também que é segundo a expressão desses quadros referenciais estereotípicos que os médicos validam ou não a legitimação da mudança de género; forçando os indivíduos a performar segundo esses mesmos quadros, por forma a poderem fazer a mudança autorizada pelos médicos.

Abel Matos volta a referir o não acompanhamento dos filhos pelos pais ao psicólogo, sendo que podem ter uma doença de base que necessite de tratamento. Retoma ainda o exemplo da opressão no ginásio.

Ricardo Branco, constitucionalista, afirma que a lei tutela casos de expressão mais física ou mais psicológica, em resposta ao retracto social de Sofia Galvão. Mais, afirma, segundo a constituição e o direito ao livre desenvolvimento da personalidade: “As pessoas, a partir do momento em que são pessoas, externalizam-se e aparecem à sociedade e aparecem diante de si próprias e diante dos outros, enfim, como quiserem e como se sentem melhor.”. Diz ainda que, segundo a psicologia, sabemos que somos mais software que genética, e às vezes é justamente o software que nos obriga a sermos mulheres em vez de homens, o que acontece frequentemente. Relativamente à questão posta por Abel Matos sobre a opressão no caso do ginásio, afirma que talvez tenhamos que evoluir eventualmente para uma configuração logística dos espaços para balneários de vários géneros, ou mistos. O direito ao livre desenvolvimento da personalidade, acrescenta, traz a despatologização da questão de género, que, considerando-se uma perturbação, até aqui era corrosiva para o indivíduo. Mas quando questionado em relação à parte etária, refere que é na maioridade que neste momento a lei encerra uma capacidade de responsabilidade e maturidade plenas. E, portanto, não será errado baixar para os 16 anos ou eventualmente menos até, mas com um relatório médico, não a atestar validações de género, mas sim a atestar capacidades de querer e entender a superação dos riscos pelos benefícios, desta mudança.

Catarina Marcelino, respondendo sobre as habilitações do conservador do registo civil, afirma que a situação não é nova, e que já existem muito mais casos onde estes têm que avaliar se os processos são legítimos, como no casamento, cuja idade legal é também os 16 anos.

Abel Matos volta ao assunto da imaturidade aos 16 anos, apoiando-se no desenvolvimento incompleto do córtex pré-frontal do cérebro, dizendo que é por isso que a maioridade é aos 18, e que se não se pode votar, nem fumar nem beber, mas pode-se mudar de sexo, não fazendo sentido. Refere ainda uma vez mais as patologias psíquicas, dizendo ser isto portanto um problema de saúde individual e de saúde pública.

Sandra Cunha refere que nada disto invalida o acompanhamento médico e avaliação do indivíduo, voluntário, apenas não é necessário à alteração do registo civil.

Sofia Galvão, assim como Abel Matos, contrapõem a proposta de lei dizendo que é tratada com demasiada ligeireza, pelo acompanhamento médico não ser obrigatório, e por o conservador se encontrar completamente sozinho na decisão, não sendo claras as situações em que pode indeferir o pedido, tratando-se então portanto de uma questão de empatia com o caso. Retoma ainda a ideia da expressão de género poder não vir a bater certo com o género legal, a partir daqui.
Sandra Cunha questiona qual é o problema disso, e refere que a forma como se veste e se apresenta não define aquilo que uma pessoa é. Ao que Sofia Galvão pergunta então porque é que quer mudar. Sandra Cunha retoma com a pergunta, se quiser vestir fato e gravata e usar boxers deixa de ser mulher por causa disso? Ao que Sofia Galvão responde que não. E pergunta então porque é que alguém que se apresente como mulher quer ir ao registo civil para passar a ser homem (a mesma que referiu o não-binarismo primeiramente).



Sofia Cunha pergunta, diz ela para se perceber como isto é político e politicamente correcto e relativismo, se falaram com os conservadores, e com os médicos. Ao que Sandra Cunha e Catarina Marcelino respondem que os médicos recomendam a autodeterminação. E Catatina Marcelino refere que não existe nenhuma objecção a que se levem os filhos ao médico, apenas não se podem fazer alterações e tratamentos modificadores às crianças sem o seu consentimento.

O debate volta ao assunto intersexo, Paolo Casella, cirurgião pediátrico responde que é muito difícil ter que esperar pelo tratamento aos 16 anos, mas refere-se apenas a uma malformação peniana de desenvolvimento específica, preferindo não tocar em questões de disforia de género, que diz não serem da sua especialidade.

Catarina Marcelino corrige que nestes casos o diploma não refere os 16 anos, e que nas questões de risco comprovado para a saúde não se coloca. Apenas em questões que impliquem modificações a nível do corpo e das características sexuais, não devem ser realizados procedimentos até que seja manifestada a identidade de género. Paolo Casella refere que o conceito de saúde é relativo.

Carla Moleiro, professora de Psicologia, questionada acerca dos 16 anos, afirma que a maturidade não tem uma idade definida. Refere ainda que a transexualidade define apenas a incongruência entre o sexo designado à nascença e o género com que a pessoa se identifica, não necessitando, nem até agora, de ter executado nenhum procedimento cirúrgico, hormonal ou outro para ser reconhecida essa identidade, medicamente no relatório avaliativo.

Abel Matos responde então que, se ao que Carla Moleiro referiu, esta lei já abrange esses casos, o que se está a fazer aqui é uma questão ideológica. E que temos que salvaguardar aqueles que não tendo um transtono de identidade de género per si, mas por terem uma patologia de base, possam ser defendidos pelo sistema de saúde. Expõe um caso de um homem de 65 anos “casado e com filhos”, que chegou ao seu consultório dizendo que era uma mulher. Estranhando que acontecesse a essa idade, encaminhou para a neurologia, onde detectou um tumor cerebral. “Foi operado e essa ideia passou-lhe”.

Margarida Faria, Presidente da AMPLOS, aponta a caricatura e jornal do incrível, que aqui se está a fazer. Aponta para a fluidez do espectro de género, e que há pessoas com a noção desde sempre da sua identidade de género. Os pais, após a angústia, costumam entender e apoiar a criança, fazendo com que consigam desenvolver-se nessa identidade. Encerra dizendo que ninguém vai mudar de sexo nos registos, vão-se alterar os registos para que passem a confirmar aquilo que muitas vezes já se sabe desde tão cedo.

Sofia Galvão acrescenta que estes diplomas confundem sistematicamente sexo e género (a mesma que descredibilizou o género pela forma como se veste e tem o cabelo) e que o sistema é binário nos diplomas, descurando outras realidades, que não se resolvem. (idem ao parêntesis).

Catarina Marcelino defende que só se fizeram mudanças em relação ao que já existia, eliminando o factor saúde destas questões de identidade. Ricardo Branco defende que talvez devesse haver uma fundamentação do requerimento no plano jurídico, dizer porquê, embora não conceba que alguém utilize esta lei para questões fúteis de apenas mudança de nome porque sim. Referindo ainda que não se pode endeusar a posição dos pais.

E o tempo do programa chega aqui ao fim. Acho que a capacidade de argumentação mostra a lógica da opinião no espelho da coerência dos argumentos...

Monday, October 9, 2017

Asas e tinta na pele | Frida Kahlo by Bilotta Tattoo




O tal Sábado que nunca mais chegava. 7 de Outubro. Nunca tinha tido processo destes tão talhado pela doçura como aconteceu com Igor, que fez o atendimento virtual de Bilotta Tattoo (da Don't Cry Collective). Sentia-me em casa, antes sequer de ter chegado, e não, não é exagero.

Quem é Bilotta? Pois bem, chegou a mim de surpresa. Como foi sempre, esperava um sinal do universo de quando e como tornar derradeira em mim a auto libertação de que tinha escrito o manifesto recentemente. Sabia que a resposta era Frida. Encontrei Bilotta Tattoo no Facebook, quando não procurava sequer, nesse compasso de espera. Apaixonei-me. “O tatuador mais fixe do Rio de Janeiro”, estava escrito. Não tive dúvidas porquê. Até self-tattoos ele tinha feito, de perder o ar. Ficava em Lisboa até ao fim do mês e zarpava. Era a vida a dizer-me que era agora. O caminho fez-se.

Batiam as quatro da tarde certas, quando cheguei ao estúdio. Nervosismo nada, por mais estranho que fosse. Bilotta sorriu-me enquanto saía do carro. Os meus olhos brilhavam, tenho a certeza. “Então, me fale de Frida, me conta.” – abriu-se mundo ali. Falei dela como se fosse eu, falei de mim como se fosse ela, não sei bem onde se apaga o nosso ponto de fusão na verdade. Olhei Bilotta nos olhos, como raramente faço. E ali havia verdade. Tanto foi que não tardámos a falar de fado sequer. E se precisasse de mais certezas de que tínhamos o mesmo comprimento de onda, estavam ali.

Desenhou em mim o primeiro rascunho. Disse ele que era só a parte de criança a divertir-se com uns rabiscos. Frida foi baixando em nós. Conversámos como se nos conhecêssemos há anos. Bilotta teve uma facilidade de mestre em ver-me para além do que se vê mais imediatamente. O processo todo fluiu. A energia toda fluiu. Mostrei-lhe Raquel Tavares. Ouvimo-la. Falei-lhe de Alfama, também se tinha apaixonado já. Mais uma prova de que era dos meus.

E entre dedos de conversa sobre arte e existências, estudámos Frida, vi-o absorvê-la, enquanto me agradecia várias vezes o presente de fazer isto. Aquele não sei quê de onda gigante que une os que são desta raça estava ali, diante dos nossos olhos. Captou-a. Amor à primeira vista.

À primeira linha disse “Que Frida esteja connosco.” E esteve, se esteve. Seis horas passaram. Uma eternidade xamânica. Uma dor de metamorfose. Lágrimas na linha de transbordo às vezes, por cada ponto de asas que se fazia pele. Outras vezes uma tranquilidade quase transe. Estou quase certa de que nas nossas respirações estavam até entrelaçadas. Olhávamo-nos nos olhos um ao outro e estava ali patente – a força de Frida, a minha libertação, a arte que só se faz com esta entrega.

Bilotta deu-me as asas. E tenho a certeza que o soube tão bem quanto eu. Estava na cara. Estava na pele. Estava naquelas palmas que batemos e que pareceram ecoar por Lisboa inteira quando levantou a agulha do último ponto, era uma da manhã.

Se Frida esteve connosco? O que havia de Frida em nós emergiu ali. Foi isso que nos atou os laços, estou certa. Bilotta ficou um amigo. Pouco me importa o imediatismo com que o digo, abri-lhe a porta à minha raiz. E ele, com a sua arte elevada, deixou-me gravada a certeza que não me havia de esquecer da força que essa raiz tem.


“Pies, para qué los quiero si tengo alas pa’ volar?” escreveu Frida no diário, corria 1953. Foi a frase que deu mote a isto tudo. Meta-voo dos meta-voos… Frida tornou-se as asas ela mesma. Foi dia de metamorfosear-me, ode à auto libertação, manifesto na pele, se foi. Saí alada.

Friday, September 29, 2017

"É o tornar-me mais mundo que acaba por me manter." | Inês Marto

Sexta à noite. Vim a casa da minha mãe. Estou numa altura com pouca coisa obrigatória que fazer (ainda bem), o que me deixa - ainda mais - com demasiado que pensar (se calhar não tão ainda bem... ou se calhar sim, a linha é ténue entre o desenvolvimento de novos caminhos ou o vertiginoso descarrilanço existencial, nestas alturas, o que pode ou não levar ao primeiro outra vez, também, mas isso é outra história).
Dou comigo no habitual eco de pensar em metas (a meio caminho entre o primeiro e o segundo, portanto, vamos lá ver)... Às vezes não sei se seria mais feliz se fosse menos inconformada, ou se é por ser inconformada que vou provando um bocadinho do que é ser feliz. Mas a verdade é que é consistente em mim a necessidade de mais. Algo mais. Nem sempre sei exactamente o quê, mas mais. Se por um lado gostava dessa coisa da tranquilidade dos anos - se é que seja verdade - por outro, acho que isso era bem capaz de ser a minha morte.
Estava a ver o podcast do Rui Unas, Maluco Beleza, com Herman José:


(De nada.) Quando, no contexto da conversa, Herman diz que, quando se tem absolutamente tudo acaba-se o desafio. E de repente fez um pouco mais de sentido, esta minha dicotomia entre a ânsia por alguma paz de espírito - passo a absoluta estupidez deste antagonismo - como dizia na entrevista, e a comichão desalvorada que me provoca a estagnação decorrente das zonas de conforto.
O podcast toca também na questão da reinvenção constante, que acaba por ser uma primeira necessidade sobretudo no campo artístico. E de facto, do alto dos meus 22 anos pequeninos, não posso deixar de o sentir.
Bem sei que tenho o terrível defeito de querer que tudo aconteça e depressa, que se desenrole e que venha mais. Bem sei que me falta a paciência para ver o que é que o tempo me reserva, de tal forma que muitas vezes quase me afogo.
Mas a verdade é que me encontro àquilo que a mim me parece muito tempo (a nós parece-nos sempre mais, pronto) à procura de um lugar válido, subsistente. Nunca quis tronos, mas gostava de sentir um bocadinho de chão. Um bocadinho de vida, boa ou má, mas conseguida à custa daquilo que desde que me lembro é o que quero da vida: a minha escrita.
E então dei de caras com a minha flagrante pequenez (como felizmente dou muitas vezes, não gosto disso de não pisar o chão) e indaguei até que ponto sou alguém, para alguma coisa. Até que ponto é que o mundo me deverá efectivamente um lugar, ou serei eu que tenho que infinitamente mais me tornar lugar a bem de vir a conquistar o meu bocadinho de mundo.





Estamos na era do imediatismo.  Talvez venha daí também alguma da minha dificuldade em dar tempo ao tempo. E sempre que assento os pés no chão, contrasta-se a minha avidez por um lugar com esta tal noção de ser mera gota.É daqui que nasce a minha sede de desafios, é sempre deste contraste. Pauto-me por crescer. Sempre que me debato sobre ficar, é o tornar-me mais mundo que acaba por me manter.
No caminho para cá falava sobre possibilidades de futuro. Cheguei depressa à óbvia falta de desafios que sinto. E não é que tenha nada na mão, propriamente, até se torna num quadro ridículo de estagnação a pairar, sem a zona de conforto sequer.
A única coisa que sinto conquistada aos poucos, a pulso, é um punhado de gente, não muito grande, mas muito sólido, que começa a querer ouvir os meus gritos. E nisso não nego o privilégio.
Pensava, nesse entretanto, talvez voltar a Psicologia. Talvez mestrado em Filosofia. E a seguir o previsível "Mas que saídas é que isso me dá?". A questão é que não quero "seguir" nada disso, mesmo. O que quero (tentar, na medida em que mereça) poder fazer da vida é realmente arte, seja lá em que valência melhor a transmita, ainda acho que é escrever. Mas talvez me desse mais credibilidade. Mais "direito" a uma plataforma, a um lugar, a esse bocadinho de mundo que me deixasse ter a minha vida.
E, ironicamente, depois de tanta pressa em agarrar tudo, penso "Mas gostava de fazer isso no meu tempo, enquanto vivo." (não sei que parte da frase me deu mais vontade de rir)... por auto-expansão, se me pudesse dar a esse luxo, como quem se cultiva enquanto tem a sua vida, só que na esperança de poder ter legitimamente a sua vida... podia ser um caminho...
Será isso? Será que é aí que me encontro nesta contradição? Entre o querer que a vida inteira me aconteça para ontem, tanta é a ansiedade; e o dar-me tempo para viver no meu compasso e me expandir, até que aconteça por mérito, que seja quando for é no tempo certo? Há mediatriz, sequer?
Se tivesse respostas, não era eu.


Sunday, September 17, 2017

"Vai atrás do que queres" | um desabafo

Dom. - 17 Set. - 17:38 -  Lisboa

"[...] Os meus dias estão cada vez mais sós. Acho que faz parte.
Tenho lutado por me manter. Tenho tentado sonhar.
Mas se calhar não passam de tentativas, não sei, porque ao que diz toda a gente o que faço é ver a vida passar. Eu penso que luto.
Embora fique em pijama à frente de um computador, eu acho que luto. Não sei.
Talvez isto não seja lutar e eu seja covarde porque não sinto que o pouco onde posso ir sozinha e a fragilidade disso me valha o esforço imenso de me vestir e sair pela minha mão, para ver os outros "viver".
Todos os dias me destilo no que escrevo.
Todos os dias desenvolvo ideias para ganhar a vida.
Todos os dias acho que vivo mais em quatro paredes que tanta gente que é capaz de correr o mundo. Mas condenam-me. Dizem que não tento. Que não vou atrás de nada.
Todos os dias saio da cama sozinha. Comecei a limpar, pequenas coisas. Já não morro de fome por minha conta.
Estive cinco minutos a apanhar esta caneta do chão para escrever. Mas consegui.
Estas batalhas que ninguém conhece, devia gritá-las ao mundo.
Subestimam a garantia do básico. Por isso é que dizem que não luto.
Não sabem que estive 21 dos 22 anos que tenho sem poder tomar um banho 100% por minha conta. E mesmo agora basta não estar tudo a jeito que já se complica.
Ainda assim dizem "Vai atrás do que queres" como se fizesse eu outra coisa ao ainda sair da cama dia após dia.
Lutar, luto assim que abro os olhos e a realidade cai.
Sonhar, sonharei enquanto não parar de escrever.
Lamento que não se entenda que o tamanho das minhas asas se justifica pelo das minhas grades."

Tuesday, September 5, 2017

"Está na hora de ver para além do óbvio" | André Mendonça


Inês Marto: André, tens 21 anos, e, no mínimo, um rol muito peculiar de características. Se tivesses que te resumir numa frase, para quem não te conhece, como te apresentavas?

André Mendonça: "Sou tudo, sem querer ser nada." Todas as experiências em que o destino me colocou não dependeram de mim para aprovar ou reprovar, simplesmente estava escrito assim. Ter deficiência - paralisia cerebral, sentir atração por pessoas do mesmo sexo, ser poliamoroso, ter uma identidade de género diferente da norma padrão, são todas questões que sempre fizeram parte de mim e fui descobrindo no último ano.


IM: Um dos teus sonhos é a cozinha. Queres falar um pouco sobre isso?

AM: Esse sonho começou quando ainda vivia na Ilha da Madeira de onde sou natural. Desde pequeno que dentro de mim se manifesta o “bichinho culinário”, observar os outros a fazer e ter vontade de pôr as mãos na massa. As primeiras tentativas não foram as melhores, mas com o tempo fui aperfeiçoando.  A vida forçou-me a crescer mais cedo do que o esperado, tive que aprender sozinho a desenrascar-me, porque os meus progenitores  trabalhavam a tempo inteiro. O gosto foi crescendo e a vontade de experimentar novas coisas também, fazendo adaptações e mudanças às receitas originais. Tenho mais  gosto pela parte da pastelaria, desde a infância, e com o passar dos anos esse bichinho foi crescendo, e tornou-se em algo que gosto mesmo imenso de fazer e que me dá prazer. Dada a condição de saúde que tenho, cozinhar por si só é um enorme desafio… Tenho recebido constantemente elogios das pessoas que me são próximas, e incentivos de que deveria obter formação certificada, dando continuidade a este gosto e talento que tenho, mas trata-se de algo que não é contemplado pelo sistema educacional Português para quem tenha uma deficiência mais complexa do que simplesmente a perda de visão, audição, ou falta de membros. Isto fecha injustamente muitas portas.  Somos válidos para fazer projectos e termos uma carreira activa.  Tal como disse a masterchef  Eva Silva, no apelo que fez no PortoCanal na sua rubrica de culinária quanto ao querer frequentar um curso de pastelaria: "O André tem mais vontade e gosto do que aqueles que estão lá por obrigação!”


IM: Além da cozinha, também te interessas pelo foro artístico, correcto? Como foi até agora a experiência, e quais os teus sonhos nesse campo?

A paixão pelas artes já vem desde há muitos anos. Frequentei aulas de danças de salão, de guitarra e canto. Quando cheguei ao 9º ano, ao fazer os testes psicotécnicos, estes indicavam que eu deveria seguir uma carreira  artístico-musical. Eu bem queria entrar para o ramo artístico, porém sabia que essa hipótese não poderia ser considerada válida para os meus progenitores.  Fui para um curso Tecnológico de Informática, no qual  não me identificava de todo, e quando, no 11º ano, comecei a frequentar o grupo de teatro da minha escola secundária, percebi que tinha cometido um erro. Fui parar ao grupo de teatro por recomendação da psicóloga da escola. Aquele tempo da semana constituía as únicas duas horas que me faziam sentir bem comigo mesmo, onde podia ser quem eu quisesse sem medos, e revelou-se ser uma grande paixão minha. Foi o que me salvou da depressão que tive nesse ano.  Permitiu-me crescer um pouco enquanto pessoa, aprender mais sobre a vida, como lidar com os desafios que nela surgem, principalmente os problemas e frustrações.
Quando vim para Lisboa em 2014, após ter abandonado o curso de Informática devido à intensa homofobia a que estava sujeito na escola e em casa, decidi mudar o rumo a minha vida e queria seguir teatro, fiz um audição na ACT e na NBA (Nicolau Breyner Academia), tendo sido aceite nesta última no curso de actores. Fiz algumas figurações em televisão e pouco mais. Apenas estive três meses no curso da NBA, mas passei bons momentos. Na altura desisti do curso pois apercebi-me que não estava na melhor fase da minha vida para me dedicar a algo que exigia tanto de mim, tanto a nível físico como psicológico.
Os meus sonhos neste campo são conseguir mostrar ao mundo das artes que é possível ser-se ator mesmo com os desafios que a CP nos coloca. Não cair no estereotipo  de ser obrigatório ter mil e uma capacidades ou não se tem valor. Já é mais do que tempo de haver visibilidade e demonstrar a importância de nós, pessoas com deficiência, sermos capazes, cada um à sua medida e de merecemos oportunidades do mesmo calibre, tal como qualquer outro humano. Gostava de fazer um musical com temas LGBTQ+, não deixando de parte a questão da deficiência nesse mesmo panorama. Na minha humilde opinião considero que há espaço para as pessoas LGBTQ+ e pessoas com deficiência no mundo das artes, deixemo-nos de normatizar. Estamos em 2017. Há que mudar!!!




IM: Também pertences ao mundo LGBTQ+. Como lidas com pertencer a duas minorias desta maneira?

AM: É duro. Saber desde pequeno que sei que sou diferente, sem saber o porquê, o que está mal…. porque nunca ninguém foi capaz de sentar-se ao meu lado, explicar-me o que aconteceu, responder às minhas inquietações e questões… não é tarefa para qualquer um.  Todos à minha volta desviavam a conversa, inventavam justificações, nunca mencionaram que eu sofria de uma deficiência [Paralisia Cerebral] e que isto iria ter repercussões depois da infância/adolescência a vários níveis, como tenho vindo a verificar.  Os meus progenitores nunca foram capazes de encarar que tinham um filho com deficiência, aceitar esse facto e terem a consciência que eu precisava de ser tratado e informar os restantes familiares do que realmente se passava. Ao invés disso, inventavam histórias e mentiras para encobrir as minhas falhas e defeitos… Não é fácil levar com um balde de água fria aos 21 anos, e começar a encaixar as peças todas do puzzle e perceber-se que é mais  complexo do que à primeira vista, custa, de um momento para outro apercebermo-nos que não somos capazes de fazer aquilo que sempre pensávamos que éramos. Ora pertencer-se ao mundo LGBTQ+, é por si só já um desafio, mas pretender a duas minorias "rebenta a escala". De dia para dia, tento ir digerindo devagar esta nova etapa e viragem que a minha vida está a sofrer. 



IM: No teu dia-a-dia, quais são os maiores desafios, e como é que os tens encarado?


AM: Acho que o maior desafio de alguém com deficiência é a forma como os outros e mundo nos percepcionam. Não há nada de errado connosco, cada um é como é, e todos temos capacidades e virtudes, ao nosso jeito, à nossa maneira. Mas esse peso psicológico que carregamos por imposição do outro, é bem grande. Muitos consideram que, ao começar a afirmar-me, que deixei de ser eu, de ter as minhas qualidades, os meus valores, os meus ideais, os meus interesses. Por vezes chego a pensar seriamente que devo ter algum “problema” pois vejo os rapazes a olharem para mim, julgarem-me e quererem-me só pela minha aparência física e pela minha alta líbido, sim as pessoas com deficiência caso não saibam também são seres sexuais.  Já me senti usado mais do que uma vez… alguns já se aproximaram de mim aparentemente com boas intenções e no fim descobri que fui só um meio para obter um fim. Outros pensam que se podem aproveitar de mim como se eu fosse um brinquedo sexual à sua disposição que está ali, de graça, em vez de estar exposto numa vitrine de uma sex shop com uma etiqueta de preço. Em oposição, olham maioritariamente para o meu companheiro pela pessoa que ele é, pelos interesses, pelo intelecto, pelos hobbies, gostos (musicais, literários, etc…). Sem corpo não há pessoa e sem pessoa não há corpo, torna-se um invólucro vazio. Sexo não é tudo na vida. Quero ter amizade, companheirismo, partilha de experiências e perspectivas de vida, evoluir, crescer em pessoa e em ser.


IM: Assumes-te como poliamoroso. O que pensas sobre a forma como a sociedade vê o poliamor?

AM: A sociedade ainda olha com maus olhos, é ainda muito mal visto e não entendido.  A definição mais lata de poliamor diz que é “a existência de um relacionamento em que pode existir a possibilidade de outros relacionamentos afectivos e/ou sexuais com o consentimento de toda a gente.”. É complicado encontrar alguém que veja o mundo assim. É difícil a outra pessoa não se sentir mal, não se sentir como “o outro” ou sentir que não recebe tanta atenção…  Muitas acham que quem é poliamoroso é alien, ter relação poliamorosa é estranho, que quem o é não gosta verdadeiramente da pessoa que está ao seu lado…


IM: E quanto à tua identidade de género, apresentas-te como trans. Queres falar um pouco sobre essa definição?
 
AM: Identifico-me como transgénero, não binário, genderfluid  e andrógino. Havia ali algo me deixava inquieto, desde sempre, e via-me obrigado a reprimir o meu verdadeiro “Eu”, para me encaixar nos cânones e estereótipos da sociedade. Eu desde cedo que sentia um lado mais feminino em mim (querer pintar o cabelo, unhas, usar maquilhagem, usar saias, vestidos, sapatos de salto alto, entre outras peças de vestuário e acessórios como brincos, colares, anéis). Em termos de expressão de género trata-se algo ambíguo, pois não tenho uma aparência somente-feminina nem somente-masculina mas sim algo no meio do espectro com fluidez. Sinto um duelo dentro de mim, um mix de masculino e feminino. Depende muito dos dias, do meu estado de espirito, e é algo com que eu ainda hoje  não sei lidar bem na totalidade.
Gostava de ter um físico e uma aparência que me fizesse passar mais despercebido na rua, pois as pessoas notam logo que tenho barba e pêlos no tronco, pernas e braços e percebem logo que “sou um rapaz vestido como uma rapariga”, acabando por sofrer imenso com isso, seria preferível que as pessoas ficassem confusas ou baralhadas e interpretassem como não sendo nem rapaz nem rapariga. Chego a aperceber-me disso mesmo nas pessoas que conheço, elas ficam apreensivas sobre aquilo que eu estou a querer transmitir no dia-a-dia. Já tive comentários de amigos que dizem sentirem-se estranhos ao meu lado quando estou a usar saia, vestido, sapatos de salto alto ou maquilhagem. 


IM: Tens um dos diagnósticos mais raros de paralisia cerebral que conheço. Como lidas com os estigmas à volta disso?

AM: Ao longo do Verão de 2016, fui notando um ligeiro agravamento do meu estado de saúde… comecei a revelar mais dificuldades em ouvir (eu frequentemente falava alto para combater isso e nem me apercebia), a capacidade respiratória, assim como a capacidade de processar informação e a resistência ao esforço físico, todas diminuíram. Tornou-se necessário começar a fazer check-ups nas várias especialidades para perceber o que se poderia estar a passar. A primeira paragem foi na audiologista que, após efetuado o rastreio gratuito, verificou que eu sofria de perda auditiva moderada em ambos os ouvidos, e que seria importante eu começar a usar aparelhos auditivos para prevenir o agravamento da perda.
Nas semanas que se seguiram fui continuando a ter consultas atrás de consultas, de todos os campos: oftalmologia, pneumologia, imuno-alergologia, neurologia, fisiatria, neuro-psicologia, psicologia, terapia da fala, estomatologia/medicina dentária ATM (articulação temporo-mandibular), entre outros. Em cada especialidade, encontrámos explicações para inúmeros sintomas, comportamentos corporais e atitudes que eu tinha, muitas das quais, involuntariamente. Tudo começou a encaixar-se no puzzle e o panorama não era nada animador.

Para pessoas que sofrem de paralisia cerebral, é normal passar por uma fase de envelhecimento prematuro, entre os 20 e os 40 (face à infância em que os sintomas permanecem relativamente controlados e monitorizáveis) mas infelizmente ainda não existem estudos suficientes focados na fase adulta, para se poderem fazer muitas afirmações e terem certezas ou previsões para dar.

Este, foi um enorme desafio, pois, por incrível que pareça, só à quarta tentativa é que consegui um diagnostico que correspondia aos meus sintomas, apesar de estar classificado como “paralisia cerebral espástica - diplegia assimétrica”, acaba na verdade por ser uma “paralisia mista - triplegia” (o membro superior direito e ambos os membros inferiores afectados), por ter também fenómenos de distonia, rigidez, ataxia. 
Não lido nada bem com isto, pois da minha experiência, para ser reconhecida a deficiência por parte da sociedade em geral, temos de estar obrigatoriamente numa cadeira de rodas, ser cegos ou surdos, tudo aspectos notoriamente visíveis. Já me aconteceu em diversas ocasiões, tanto em reuniões para cursos, consultas médicas, pessoas ao meu redor dizerem e porem em causa aquilo que eu transmitia: “Ah mas não parece que tens algo!”, “Pensava do que tinha dito ao telefone/mail que se encontrava numa cadeira de rodas”, “Tu falas e andas”, “Estás a exagerar, são coisas da tua cabeça”, “Você está óptimo, pare de armar-se em coitado!”…
Eu desafio-me imenso, e ainda me acho capaz de fazer tudo… e é duro saber que isto é mais complicado do que o esperado, e que irei ter de depender de alguém para o resto da minha vida.



IM: O que pensas que podia ser feito para mudar a tua vida para melhor (quer quanto à condição física, quer nas questões LGBTQ+)?

AM: É necessário, nas questões LGBTQ+, dar visibilidade acima de tudo. Principalmente às pessoas T (Trans) nos diversos contextos, mostrar que todos merecem ser respeitados independentemente das suas crenças, identidade de género, orientação sexual, deficiência  entre outros. 
Devemos unir-nos estar coesos, mudar a forma como o mundo nos olha, pouco a pouco, porque tenho a certeza se isso mudar… no dia seguinte sou outra pessoa. 
Antes de dizerem "não digas que não és capaz" pensar porque é que digo que não sou capaz, pensar no peso que a sociedade tem sobre nós, pensar que pela quantidade de nãos e portas fechadas que já tivemos, é difícil em alguns dias ver a luz no fundo do túnel, ter a esperança e a confiança de que algo se há de conseguir. Lá por ter um mero “defeito de fabrico”, chamemos-lhe assim,  não quer dizer que não haja um caminho que me permita fazer alguma actividade profissional de alguma forma. Acho que o melhor seria o outro tornar-se mais atento, inclusivo, aberto a ouvir-nos até ao fim sem pré julgamentos precipitados. 


IM: Se tivesses tempo de antena em que todo o mundo te pudesse ouvir, que mensagem gostarias de deixar?

AM: Está na hora… na hora de ver para além do óbvio. Eu faço parte daquilo a que se designa “padrão”. Compaixão, não obrigado… Eu sinto me capaz de fazer coisas ao meu jeito, ao meu ritmo, à minha maneira , amo cozinhar e fazer doces, queria vender e sentir-me útil, já que todos dizem que é bom e que deveria fazer dinheiro com isso. Mas do que serve receber tantos elogios, se não se valoriza de verdade o mérito de quem merece.
Acredito que nada é impossível, somos resilientes, e com uma personalidade forte. Eu tento, tento e tento… não me consigo conformar. Eu não sou a apenas a CP, ela é só uma pequena parte de mim. Eu sou um mundo de coisas para além disso… Vamos remover complexos, desmistificar preconceitos, e educar esta sociedade. 
Quando chegar o nosso dia, o sabor da vitória vai saber tão melhor, podem ter a certeza que chegará, porque não aceitamos o não! #unidos

Eu sou o lado direito do cérebro . Porquê o direito? Pergunta-se… foi aquele que permaneceu intacto e desenvolveu-se…
Sou criatividade. Um espírito livre. Eu sou paixão. Sensualidade. Eu sou o som das gargalhadas. A sensação de areia debaixo dos pés descalços. Sou movimento. Cores vivas. Eu sou o desejo de pintar numa tela vazia. Sou imaginação sem limites. Arte. Poesia. Eu sinto. Eu sou tudo o que eu queria ser.

Agradeço imenso à Inês Marto pelo nosso encontro de almas. Acredito que iremos voar longe! Até à próxima.

Tuesday, August 29, 2017

André Mendonça | Entrevista a Inês Marto


1. Inês, em primeiro lugar foi uma surpresa imensa ver um artigo de alguém com deficiência num site de notícias LGBT português e com tanto em comum comigo.  De que forma encaras o mundo lá fora? Como te encaras pertencendo a três minorias: ter deficiência, ser LGBT+, e ser poliamorosa?
O mundo “lá fora” é… uma dicotomia muito grande. Por um lado há imensos esforços para a mudança de mentalidades a acontecer, o activismo é cada vez mais. Por outro lado, a emergência de novos grupos “anti” também me assusta. Têm crescido grupos com um ódio desmesurado a pessoas, por estarem simplesmente a ser pessoas, de forma completamente absurda e isso é preocupante. Precisamos de mais união e menos mesquinhice urgentemente, para combater isso.Quanto à forma como me encaro a mim mesma, acho que é natural. Nunca fui outra pessoa, não saberia o que é não ser eu, tentei lidar com as minhas realidades à medida que elas se revelaram, como tentamos todos, e penso que não me tenho saído mal… (risos)

2. Depois do teu artigo publicado em Julho no Dezenove.pt, qual o feedback que recebeste? O teu artigo é o único publicado até hoje no dezanove acerca de LGBT+ com deficiência, como encaras esse facto? Há ou não muito ainda por fazer?
Há muito ainda por fazer, sim, claro que sim. Começando pelo despudoramento sobre os nossos corpos, sobre os nossos padrões físicos, sobre a nossa condição humana. E digo isto muitas vezes também em relação a nós mesmos. Há ainda muito por fazer em termos de auto-exploração, de nos descobrirmos para nos sabermos também retratar, para conseguirmos depois mudar os paradigmas que infelizmente existem. Acho que trazemos, além das batalhas físicas, um trabalho latente de auto-melhoramento connosco, para nos conseguirmos expandir a ponto de nos podermos expor, para tentar estas mudanças. É preciso coragem, mas pode ser que consigamos abrir caminhos.

3.  Quais foram as situações mais complicadas que tiveste durante a tua infância e adolescência tendo deficiência? Tiveste de amadurecer e encarar a vida de outro modo, comparativamente a alguém sem deficiência na tua faixa etária?
Essencialmente o bullying e as repercussões que teve em mim, em termos de autoestima e confiança. Isso foi a parte mais complicada. Além das dores físicas e das frustrações, claro. E o facto de ter que encarar que se calhar a minha realidade não ia ser das mais genéricas. Mas depois aprendi a ir vendo essa parte como uma vantagem, às vezes até uma arma, levei o meu tempo. Tem a ver precisamente com isso, com esse amadurecimento. Mas não tenho a certeza se amadureci por causa das condições físicas, na realidade. Promovem outra forma de olhar a vida, claro. Mas sempre me senti uma alma velha, até em questões que não tinham nada a ver com isso. Já era naturalmente desadequada à minha faixa etária. Isso talvez tenha impulsionado mais, mas penso que faz parte da minha essência. E acho que ainda bem.

4. Qual são os  teus maiores desafios na vida diária?
Sem querer ser demasiado lírica, acho que o meu maior desafio diário sou mesmo eu, enquanto pessoa, e a minha necessidade de reinvenção constante, muitas vezes pode ser desgastante, isto de “brincar” com as minhas próprias linhas como (esperamos) meio de vida, mas, além de ser compensador, é mesmo uma necessidade. E depois, tirando isso, são as minhas ansiedades, os meus pânicos, o não saber se o meu corpo hoje vai resultar, se ficar sozinha se vou conseguir desenrascar-me… apetecer-me apanhar um avião para o Tibete e não poder… (risos) é… não poder viver às três pancadas, despreocupadamente… gostava, pelo menos de experimentar um dia, sair do survival mode um bocadinho e respirar.

5. Achas que existe uma total falta de visibilidade das pessoas com deficiência em Portugal? E pessoas com deficiência LGBT+?
Das pessoas com deficiência não diria, já existe gente a desbastar caminhos, felizmente. A Mafalda Ribeiro, por exemplo, o Salvador Mendes, o Paulo Azevedo, a Diana Bastos e o trabalho que se tem feito na companhia Vo’arte, acho que pode mudar muita coisa. Agora em relação a pessoas com deficiência LGBT+, a história é outra… e infelizmente mais funda do que isso, começa logo no reconhecimento de pessoas com deficiência enquanto indivíduos com dimensão sexual existente. Felizmente há páginas como o Sim, nós fodemos que têm feito esforços para mudar isso. Mas, nesse contexto (ainda muito pequeno para o que devia) ainda é tudo muito heteronormativo. Espero conseguir mudar alguma coisa nisso.

6. O que achas que poderíamos fazer em conjunto para mudar esse paradigma da visibilidade ?
Unirmo-nos. Eu sei que regra geral não é bom sermos estereotipados todos como estando no mesmo saco, mas neste caso particular desta minoria dentro da minoria, acho que é urgente unirmo-nos, para conseguirmos alguma evolução da sociedade. Deixarmos de ser exemplos tão pontuais. Termos uma “pegada” concreta. Acho que a nossa surpresa em nos termos encontrado um ao outro fala por si sobre o quanto isto é necessário.


7. Na tua opinião, como lida a sociedade com uma pessoa com deficiência?  Tendo fluidez de género, e ainda sendo LGBT+,  isso traz mais pressões para a forma como os outros nos vêem?
Não sei bem se lida com medo, se com desconhecimento. Quero acreditar que grande parte das vezes o desconforto das pessoas é genuinamente por não saberem como reagir. E isso só se combate com a visibilidade de que estávamos a falar, até que caiamos em lugar-comum. Sendo gender-fluid e tendo a sexualidade que tenho… talvez provoque estranheza, sim. Nunca senti que se “acumulassem”, digamos assim, uma à outra, essas pressões. Mas talvez provoque estranheza por se calhar nem passar pela cabeça das pessoas a hipótese, lá está, por falta de representação.

8.  Qual é o teu maior sonho?
Paz de espírito! (risos)… não sei, podia dizer felicidade, mas não vejo isso enquanto meta. Gostava muito de sentir sempre que tenho um propósito na vida. De poder sempre dar de mim à arte, de ser uma pessoa mais destemida, um bocadinho mais leve (não totalmente, não gosto muito de me descomplicar a 100%, perco a “veia”), gostava de me sentir livre, em todos os aspectos. E de um dia olhar para trás e ver que consegui tornar-me na pessoa que vim ao mundo para ser.

9. Se pudesses mudar alguma coisa em relação à forma como o mundo olha para as pessoas com deficiência, o que seria e porquê?
Mudava a forma como as pessoas se olham umas às outras, no seu todo. Ou melhor, tentava que se passassem a olhar, mais, acho que é isso que falta. Não está na forma de olhar, o problema, está é no acto sequer de nos olharmos, que existe tão pouco, se isso passar a acontecer, com verdade, o resto virá por acréscimo.

10. Na tua opinião o que é que poderia tornar a vida de uma pessoa com deficiência, melhor?
Dependerá muito, caso a caso. Mas muito disto que disse daria para esta resposta, de alguma forma. Termos um mundo que nos considere existentes e se adeqúe. Olharmo-nos, e olharem-nos, com verdade. Auto-aprofundarmo-nos, acreditarmos em nós, nunca perdermos a capacidade de sonhar… Aceitarmo-nos da melhor forma que formos sendo capazes. Encontrarmos o nosso propósito e lutarmos por ele como se a nossa vida dependesse disso, que muitas vezes depende mesmo. Unirmo-nos. Unirmo-nos. Unirmo-nos.

Monday, August 7, 2017

Opinião: Speechless (Temporada 1)



Acabei ontem de ver a primeira temporada do Speechless. E para ser sincera já sinto falta. Descobri a série por causa da Robyn Lambird, de quem falei num post anterior, e também do Zach Anner, de quem obviamente precisamos de falar aqui também.
O Zach é um dos youtubers mais engraçados que descobri, que por acaso também tem paralisia cerebral e mostra-a de formas genialmente cómicas. Não vou dar spoilers, vejam por vocês mesmos, no canal dele, de nada.
Curiosidade: O Zach acabou por entrar num episódio, no papel de, usando as palavras da Maya DiMeo, JJ do futuro. Aqui está o vídeo dele sobre a série:
Falando de um ponto de vista pessoal, tenho que referir que nunca vi nenhuma série com uma personagem de cadeira-de-rodas antes, tirando o Glee, lembrei-me agora.  E quanto ao Glee, tenho que dizer que pessoalmente penso que o Artie ficou muito pela rama e foi mal aproveitado no enredo.
A diferença aqui é principalmente a maneira como a série foi construída, eu acho. A forma como a paralisia do JJ está sempre lá, mas ao mesmo tempo é uma coisa tão habitual que quase se torna parte do pano de fundo, a não ser que algum (frequente) desafio apareça.
E, sejamos realistas, isto é tão brilhante porque se liga a nós, por ser mesmo assim que as nossas vidas são, tendo paralisia. Para mim, está tudo muito realista. E é precisamente tão engraçado por ser tão verdade.
Resultado de imagem para JJ dimeo
Outra coisa que tenho que apontar é como comecei a notar que por ver frequentemente o JJ e os padrões típicos da paralisia nele, movimentos espásticos e expressões faciais, enquanto o achava tão engraçado e querido (ele até usa isso para sua vantagem), começou a crescer um indutor de auto-estima enraizado em mim.
Através de mais e mais observação por meio de outros, os traços típicos da paralisia estão lentamente a tornar-se coisas que eu considero que nos tornam únicos e nos dão uma individualidade do caraças... e também tenho que admitir que aprender a usar a fofura como estratégia me pode vir a ser muito útil, obrigada JJ DiMeo!
Obviamente o facto de que o Micah Fowler que interpreta o JJ tem mesmo paralisia cerebral torna isto ainda melhor, porque ele é "dos nossos", sabe realmente como são as coisas. E devo dizer que se lhe tira o chapéu como actor. Mesmo estando numa parte diferente do espectro, menos severa que a do JJ, alterou a fisicalidade por forma a encarnar o personagem, não se limitando a generalizar a paralisia pelo facilitismo daquilo que já tem como seu. É um papel muito bem desempenhado e nada fácil, ter resultados tão cómicos usando apenas expressões faciais.
Imagem relacionadaMaya, interpretada por  Minnie Driver, a mãe das "necessidades especiais", é completamente hilariante, e mesmo sendo um bocadinho extrema, no mínimo, há muitas situações verdadeiras que nos traz, que nos fazem identificar com a nossa própria situação familiar de certeza em algum ponto.Mas não é só sobre a parte da identificação inerente. As diferenças também tornam a série muito interessante, e bastante indutora de reflexão, pelo menos pessoalmente por me colocar num suponhamos de cenários opostos ao meu. Por exemplo o pai, Jimmy (John Ross Bowie), e a sua constante negação emocional juntamente com uma tendência para acumular (lixo alheio) compulsivamente, que contrastam flagrantemente com a maternalidade e protecção exacerbada da sua mulher. Mason Cook, que dá vida a Ray DiMeo, toca tópicos importantes como a partilha (ou falta) de atenção dos pais ou as preocupações com o futuro do irmão JJ, conjugados com a sua ansiedade constante e situação romântica desesperada, frequentemente gozado pela sua irmã Dylan (Kyla Kenedy), uma obcecada por vencer e uma jóia sarcástica. Kenneth (Cedric Yarbrough) é a cereja no topo do bolo. Se o facto dele da noite para o dia passar de jardineiro da escola para ajudante do JJ sem qualquer tipo de experiência prévia não promete só por si, deixem-me dizer-vos que ele é o compincha e alívio cómico de, bem, toda a gente na família mesmo.
Acima de tudo achei o Speechless uma série cómica muito boa, com ou sem o tema da paralisia a ser tido em conta. Mas tê-lo representado de uma forma tão natural, sem todo o ritual da vitimização e da pena, acho que nos vai ajudar a todos a destruir estereótipos. E inesperadamente, como disse, não só mudar a sociedade, como talvez também ajudar alguns de nós a nos aceitarmos melhor, como os raios os parta tão fofos e afinal não tão limitados assim que realmente somos, e isso é um dos melhores bónus que podíamos pedir!