Sunday, February 4, 2018

O poder do feminino: transformismo, um eco de alma


Há coisas em nós que não se conseguem explicar nem com dois dedos de conversa, nem com meia dúzia de páginas de texto. O efeito lunar que o poder do feminino tem em mim é uma delas. E o pináculo disso, para mim, está no transformismo, por ser uma ode à mulher.
Não me esqueço tão depressa da última noite. É virtualmente impossível ser amante do transformismo neste país e não cruzar amores com a Deborah Kristall (Fernando Santos), a figura máxima actual deste panorama. Sorte das sortes, uma porta leva à outra. Neste caso, o corredor de portas foi circular.
O fascínio levou-me à Gala Abraço 2016. O André E. Teodósio tinha-me levado a Valentim de Barros. Também levou o José Raposo, que foi júri na Gala. Um ano depois, estava a subir ao palco, na Gala Abraço 2017, por um texto sobre Valentim de Barros, pelo José Raposo. Direcção Artística? Fernando Santos.



Demasiada coincidência? Há mais. A Gala Abraço trouxe-me o Paulo Monteiro e o dezanove... foi uma questão de juntar as peças. A noite passada o dezanove fez com que voltasse ao Finalmente, onde tinha ido só uma vez, e desejado ser transparente para poder ficar lá a absorver tudo aquilo.
Abençoada entrevista, abençoado regresso. Como o mundo dá voltas... Como é que isto tudo aconteceu? É cíclico, o meu voltar a pesquisar coisas sobre este mundo, há pouca coisa, mas nunca se sabe se alguém deixou sair mais um pedacinho de magia a público.
Via uma das entrevistas mais recentes do Fernando Santos, quando me vieram intuitivamente à cabeça perguntas que um dia lhe faria, se pudesse. Escrevi-as, porque... bem, porque não se perde nada... estava longe de imaginar é que ia ganhar tanto.
Tive um rasgo qualquer de desfaçatez, mandei as perguntas ao Paulo Monteiro. A próxima coisa que sei é que estava à porta do Finalmente, de salto alto sobre rodas, e as perguntas iam ser feitas. O que eles não sabem, nem quase ninguém, é como tudo isto (passo o duplo absurdo) é como caminhar sobre nuvens.
Vem de há muito tempo, o amor ao transformismo. Nem sabia o que era transformismo. Tinha visto uma reportagem da "Gaiola das Loucas" de Filipe La Féria, na televisão. A Zazá do José Raposo havia-de vir a ser muito mais  do que imaginava. Explica-se essa parte da história pelo texto que leu o José Raposo no lançamento do meu livro Combustão, em Março de 2017 (sim, mais uma das portas do meu corredor circular de coincidências felizes):


A Inês de 14 anos não sabia o que era transformismo. A Inês de 14 anos viu, absorveu, amou. A Inês de 14 anos sabia estar ali uma das peças da sua verdade, que não sabia como agarrar. Cresci em Fátima. Não se falava "destas coisas", lá. Ainda hoje não se fala.
Não sabia que havia espectáculos dedicados à arte do feminino, sabia só que qualquer coisa, nesse exacerbar por um lado e nesse contraste por outro (a androginia é outro estímulo), chamava por mim.
Descobri pela televisão que havia, algures lá longe em Lisboa, um lugar chamado Finalmente onde havia espectáculos assim. Não imaginava sequer que se pudesse pagar e entrar. Tinha para mim a ideia de um lugar de secretismo inatingível. E ninguém a quem perguntar.
Cada vez que tinha a oportunidade de ir a Lisboa, de fugida, pedia para passar pelas zonas onde se dizia, muito poucas vezes e em surdina, onde elas (travestis/crossdressers) costumavam estar mais vezes. Olhava pelo vidro do carro, e queria ficar ali, na esperança que me aparecesse uma Zazá emplumada... A fluidez de género ainda era um mistério. Já a sentia, só não sabia que existia pela rua livremente e de modo quotidiano.
Cheguei a Lisboa para ficar, finalmente. Mudança das mudanças. Cruzei-me com amigos com esse mundo por casa. E eu sempre na concha. Sempre no medo, sempre no pano de fundo de onde vinha, do inatingível que isso era, do nem se fazer perguntas. Mas sempre com os olhos brilhantes a cada migalha de descoberta.
Fui aprendendo da história do transformismo enquanto espectáculo o pouco que encontrava sem referências nenhumas.
Não sei onde cheguei ao nome Deborah Kristall. Sei que se abriu mundo. Achava mais que óbvio, ainda assim, que não poderia lá chegar, ver por mim. Era assunto para tirar da cabeça. O difícil era conseguir.
E de repente a Gala Abraço, um "Tenho que ir!" mais forte que tudo. Ainda não tinha entrado no S. Luiz quando vi, pela primeira vez aquilo era verdade. Faltou-me o ar como falta a uma criança a dar de caras com uma princesa da Disney.
Finda a noite sabia que tinha encontrado uma das peças que me faltavam há tanto tempo. E tinha a certeza e a vontade assoberbante de fazer parte desse mundo. Só não sabia como.
É aí que se fecha pelo menos esta parte do círculo: Valentim de Barros, José Raposo, a semente lançada.
No ano seguinte a concretização. E com a concretização uma porta aberta para o mundo às cores. Com a porta aberta, o dezanove. E com o dezanove, a maior coroa de glória: afinal podia lá chegar, não só lá cheguei como fui recebida e reconhecida, simplesmente por me querer dar ao que afinal sempre foi parte conjunta da minha raiz.
Não tenho melhor forma de finalizar do que deixar que o momento fale por si. Que seja um círculo de muitos. Que eu faça parte deste mundo, é uma honra e um eco de alma.

- Entrou neste nosso universo, não é?
- Espero que sim!




No comments:

Post a Comment